O mercado financeiro espera que o Copom (Comitê de Política Monetária) corte a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na reunião desta quarta-feira (29), reduzindo os juros básicos para 14,5% ao ano. A decisão ocorre em meio a incertezas sobre o conflito no Oriente Médio e a pressão sobre os preços de combustíveis e alimentos.
A reunião terá três desfalques. As diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro estão vagas, sem novos nomes indicados pelo governo Lula (PT). Além disso, o diretor de Administração do Banco Central, Rodrigo Teixeira, não participa devido ao falecimento de um familiar. A decisão será tomada pelo presidente Gabriel Galípolo e mais cinco diretores.
Economistas ouvidos pela reportagem apontam que a inflação corrente, a piora nas expectativas e a alta do petróleo tornam o ambiente mais desafiador. Eles avaliam que o Copom deve agir com mais cautela, o que pode resultar em cortes de juros mais lentos e um ciclo de queda da Selic mais curto do que o projetado em fevereiro, antes da ofensiva de Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, afirma que a piora nas expectativas de inflação até 2028 reduz o espaço para cortes. O banco revisou sua projeção para a Selic no fim do ciclo, de 12,25% para 13% ao ano.
O boletim Focus de segunda-feira (27) mostrou aumento da expectativa para o IPCA de 2026 pela sétima semana seguida, a 4,86%, acima do teto da meta de 4,5%. Para 2027, a estimativa subiu para 4%, ante 3,84% quatro semanas antes. A projeção para 2028 também aumentou, para 3,61%.
Segundo Gonçalves, o mercado acredita que o estreito de Hormuz não voltará à normalidade do pré-guerra, elevando o prêmio de risco do petróleo. Ele também cita a inflação corrente medida pelo IPCA-15, que acumulou alta de 4,37% em 12 meses até abril, pressionada por combustíveis e alimentos. Apesar disso, ele vê sentido no corte de 0,25 ponto devido à apreciação do câmbio, com o dólar cotado abaixo de R$ 5.
O Fed (Federal Reserve), banco central dos EUA, deve manter sua taxa de juros entre 3,50% e 3,75% na mesma data.
Solange Srour, diretora do UBS Global Wealth Management, diz que o BC adota postura “dependente dos dados” para avaliar os choques recentes. Ela aponta que a comunicação do Copom é alvo de atenção do mercado. A economista vê riscos de inflação maior devido à política fiscal expansionista no Brasil, que atrasa a desaceleração econômica e mantém as expectativas de médio e longo prazo desancoradas da meta.
Srour afirma que a falta de credibilidade fiscal dificulta o controle das projeções. Ela cita o histórico de estouros da inflação: entre 1999 e 2024, a inflação ficou fora do intervalo de tolerância em oito anos. Para ela, o BC não conseguirá reduzir os juros muito abaixo de 13,5% ao ano no fim do ciclo. Se mirasse o centro da meta para 2027, poderia até interromper os cortes após esta reunião.
Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, estima que a Selic termine 2026 ao menos 1 ponto percentual acima do projetado antes da guerra no Irã. Ele condiciona uma mudança de cenário à trajetória do petróleo. O barril Brent fechou a terça-feira (28) cotado a US$ 104,82. Segundo ele, sem alívio nos preços, o BC deve manter cortes de 0,25 ponto, terminando o ano com juros entre 13% e 13,50%.

