Os assassinatos registrados no Brasil caíram pelo quinto ano consecutivo, mas o crime organizado e a percepção de insegurança cresceram e estão no centro do debate público nacional. A melhoria nas estatísticas desse e de outros delitos graves parece ter pouco efeito sobre a preocupação com a violência.

Não há contradição nisso, segundo o sociólogo Daniel Hirata. Hoje assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo Lula (PT), ele chama atenção para o que realmente provoca a sensação de vulnerabilidade dos brasileiros: a influência de organizações criminosas sobre grandes territórios urbanos e os crimes patrimoniais, especialmente roubos de celulares.

Hirata recusa a ideia de que seja possível tratar as mais de 6.000 mortes em intervenções policiais no país como “dano colateral” no enfrentamento à criminalidade. Ele argumenta que brutalidade e corrupção policial andam juntas e, em muitos casos, favorecem o crescimento das facções narcotraficantes, milícias e outras organizações criminosas.

Para ele, não há contradição entre a queda nas mortes violentas e o aumento da sensação de insegurança. Desde 2018, as mortes violentas intencionais vêm diminuindo por fatores como o envelhecimento da população e a dinâmica de enfrentamento entre grupos criminosos. Mas a percepção da segurança pública envolve dimensões que não têm relação direta com as ocorrências criminais. Houve aumento das capacidades logísticas e operacionais dos grupos criminais e diversificação dos seus mercados de atuação.

Outro fator que impacta a percepção de segurança é o crime patrimonial, sobretudo roubo de celulares. Hirata afirmou que o controle territorial armado impacta as rotinas das pessoas, com barricadas, justiçamento informal e monopolização de setores da economia como gás, água e internet.

O sociólogo defende que a retomada de territórios das facções criminosas exige atuação policial de inteligência, urbanismo social, acesso à Justiça, integração econômica e políticas focadas na primeira infância. Sobre as UPPs, ele afirmou que houve predomínio da atuação policial e pressa na implementação, o que prejudicou o projeto.

Hirata critica a oposição entre controle do crime e respeito aos direitos humanos e defende que a letalidade policial, que continua crescendo, está ligada à falta de padronização e à corrupção. Ele afirma que policiais brutais muitas vezes também são encontrados em práticas de corrupção, o que indica penetração do crime organizado em instituições públicas.

Sobre a baixa taxa de esclarecimento de homicídios no Brasil, que fica abaixo de 40%, ele defende investimento em infraestrutura nas polícias científicas e nos IMLs, além de valorização profissional dos peritos. Hirata concluiu que, em alguns lugares, a redução das mortes violentas pode estar relacionada ao aumento das capacidades do crime organizado, que, ao se profissionalizar, passa a atuar em mercados legais que exigem discrição, tornando as mortes violentas um mau negócio.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.

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