O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou à Polícia Federal que o órgão vivia um ambiente hostil durante as discussões sobre o futuro do Banco Master, marcado por vazamentos constantes de informações. Por causa disso, ele decidiu manter em sigilo a decisão de liquidar a instituição financeira de Daniel Vorcaro, tomada em novembro do ano passado.
Aquino contou aos investigadores que escondeu de Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária do BC, e de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, a decisão pela liquidação do banco. Os dois servidores são investigados por suposto recebimento de pagamentos de Vorcaro. As defesas deles negam qualquer favorecimento ao ex-banqueiro.
No depoimento, o diretor narrou como foi o dia 17 de novembro, véspera do anúncio do desligamento do Master do Sistema Financeiro Nacional. Segundo ele, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e ele não confiavam em ninguém naquele momento e já haviam decidido pela liquidação. Aquino afirmou que Vorcaro pedia uma reunião, mas a intenção era recebê-lo apenas no dia 19. No entanto, Santana e Paulo Sérgio insistiram para que o encontro ocorresse na segunda-feira, dia 17.
Na reunião, feita por teleconferência por volta das 12h30, Vorcaro apresentou a proposta de venda do Master para a Fictor por R$ 3 bilhões, com supostos investidores árabes que nunca foram identificados. “Vorcaro insistia em perguntar ao depoente qual era sua opinião e o que achava da proposta, como se buscasse uma manifestação favorável”, diz trecho do depoimento. A transação foi divulgada à imprensa horas depois, mas não se concretizou.
Vorcaro foi preso na noite daquele dia, ao tentar embarcar em um jatinho no aeroporto de Guarulhos. A Polícia Federal suspeita que a viagem aos Emirados Árabes seria uma tentativa de fuga, o que ele nega. Aquino disse que se manteve neutro na reunião e que já tinha decidido votar pela liquidação do Master. No mesmo dia, houve também uma tentativa de venda de um apartamento de R$ 60 milhões em São Paulo, que não foi concluída.
Questionado se achava que Vorcaro já sabia da liquidação, Aquino afirmou que estava apenas conjecturando e que o comportamento do banqueiro gerava essa impressão, sem que houvesse como afirmar com certeza. Mais tarde, Galípolo convocou uma reunião com a diretoria do BC e a liquidação foi aprovada.
O diretor classificou como atípica a decisão de manter segredo interno sobre o caso. Em processos normais de liquidação, o coordenador, o chefe de divisão, o adjunto e o chefe de departamento são informados com antecedência. No caso do Master, apenas ele, o presidente do BC, o procurador e o responsável pela execução da liquidação souberam.
A conduta dos ex-gestores é analisada pela Controladoria-Geral da União desde março, em um processo administrativo disciplinar que pode levar à expulsão dos servidores. Também tramita no BC um processo sancionador sobre carteiras cedidas ao BRB. A Polícia Federal investiga se eles foram favorecidos financeiramente em troca de informações e ajuda aos interesses do Master dentro do BC.
Paulo Sérgio foi diretor de Fiscalização entre 2017 e 2023 e depois assumiu como chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária, liderado por Belline de 2019 a 2026. Ambos eram funcionários de carreira com quase três décadas de casa. A suspeita de envolvimento gerou abatimento entre os colegas.
As investigações apontam que os servidores teriam atuado como consultores informais de Vorcaro em troca de vantagens. A evolução patrimonial deles motivou a abertura de sindicância interna. O levantamento concluiu que Paulo Sérgio simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, para ocultar propina. A defesa dele nega. Belline teria simulado dois contratos, de R$ 4 milhões no total, com um advogado ligado ao Master. A defesa dele também nega favorecimento.
O Banco Central decretou a liquidação do Master em novembro do ano passado. Os bens estão sob controle do liquidante designado. Os custos da quebra do banco já superam R$ 57 bilhões.

