No Brasil, o Dia do Trabalho, também chamado de Dia do Trabalhador, começou a ser celebrado no início do século 20. No entanto, a data só se tornou feriado a partir de um decreto assinado pelo presidente Artur Bernardes em 1924.

A história da cerveja está ligada à história do trabalho. Muito antes de ser associada ao descanso após o expediente, a bebida foi usada como salário, fonte de nutrição e ferramenta de mobilização social. Desde tavernas medievais até os pubs da Revolução Industrial, passando pelos movimentos trabalhistas, a cerveja serviu como elo entre trabalhadores ao longo dos séculos.

Salário em estado líquido

A relação entre cerveja e trabalhador remonta à Antiguidade. Muitas civilizações antigas usavam a cerveja como parte do pagamento da mão de obra. Uma tabuleta de argila de 3 mil a.C., do acervo do Museu Britânico, funciona como um holerite ancestral. O artefato registra as rações de cerveja distribuídas aos operários na cidade de Uruk, na Mesopotâmia. No Egito Antigo, a prática também era comum. Há registros de que até as pirâmides foram construídas com apoio da bebida, que garantia hidratação e nutrição.

Saison: o combustível das fazendas

Antes da cerveja chegar às cidades ou ser produzida em indústrias, era feita em fazendas de maneira caseira. Um estilo que conserva essa marca é a Saison. No interior da Bélgica, os fazendeiros produziam a Saison durante o outono e inverno para vender aos saisonniers — trabalhadores temporários que chegavam para a plantação no verão e colheita na primavera. O mestre cervejeiro Phil Markowski explica que a Saison era uma “cerveja de provisão”. A produção atendia a três objetivos: refrescar os trabalhadores no verão, ocupar a mão de obra fixa no inverno e gerar bagaço para alimentar o gado. As Saisons modernas preservam o caráter rústico, sendo leves, secas e refrescantes, com notas frutadas e toque de pimenta-do-reino.

Grisette: a aliada dos mineiros

A cerveja acompanhou o trabalhador também nas minas de carvão. O sul da Bélgica foi uma das primeiras regiões a se industrializar na Europa Continental entre o fim do século 18 e começo do 19. A Grisette é uma variação da Saison, apreciada especialmente por mineradores. Era uma cerveja leve e refrescante, pensada para ajudar a recuperar as energias após um dia exaustivo de trabalho braçal. O nome significa “a pequena cinzenta” e pode fazer referência à aparência turva da bebida ou à condição dos trabalhadores cobertos de cinzas.

Porter: a “rockstar” da Revolução Industrial

A história da Porter é conhecida. O nome é o mesmo dado aos estivadores do porto de Londres no século 18, usado para todos os trabalhadores braçais da região. A Porter se tornou símbolo da Revolução Industrial, servindo de sustento para a nova massa de operários. O jornalista Martin Cornell a considerava a primeira cerveja rockstar do mundo. Uma das histórias sobre sua criação é que teria surgido como mistura de cervejas com diferentes teores alcoólicos e envelhecimentos, consumida justamente pelos trabalhadores braçais. A Porter foi uma das primeiras cervejas escuras do mundo, antes mesmo dos maltes torrados modernos.

Bitters, German Lagers e o Movimento Trabalhista

As primeiras manifestações do Movimento Trabalhista aconteceram na Inglaterra no século 19. As reuniões de trabalhadores eram ilegais até 1824. Muitos encontros ocorriam em segredo nos pubs. Além da Porter, havia as Bitters, cervejas mais claras e amargas. Esse tipo popularizou-se até as primeiras décadas do século 20, acompanhando o movimento trabalhista europeu.

Nos Estados Unidos, no fim do século 19, em 1º de maio de 1886, em Chicago, mais de 300 mil trabalhadores fizeram greve exigindo “8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de vida”. Três dias depois, ocorreu o massacre de Haymarket, com bomba, repressão policial, prisões e execução de líderes. Em 1889, em Paris, a data de 1º de maio foi instituída como símbolo da luta trabalhista. A cerveja que acompanhava os trabalhadores era a German Pils, trazida por imigrantes alemães.

No Brasil, trabalhadores começaram a comemorar a data no início do século 20. Em 1º de maio de 1943, o presidente Getúlio Vargas assinou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituindo salário mínimo e férias, alterando o título para Dia do Trabalho.

Share.
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.