Após Ulysses Guimarães levantar a Constituição Federal na mesa do Congresso Nacional, Brasília passou a gozar de plenos direitos políticos. A autonomia candanga virou realidade e, após discussão quanto à data da eleição, que alguns queriam ainda em 1988, ficou para 1990. Assim, cabia à população brasiliense e brasileira apenas a eleição de 1989.

Na quarta reportagem sobre a autonomia política do Distrito Federal, o Jornal de Brasília aborda o comportamento da capital na primeira eleição direta para a Presidência em 29 anos. Naquele ano, Brasília decidiria novamente por candidatos à Presidência, igualada ao resto do país. O Brasil votaria apenas para o cargo mais alto da República. A primeira eleição presidencial em 28 anos contava com 22 candidaturas de diversos espectros políticos.

Havia pessoas como Leonel Brizola (PDT), Lula (PT), Roberto Freire (PCB) e Fernando Gabeira (PV), da chamada “esquerda radical”. Também Ulysses Guimarães (MDB) e Mário Covas (PSDB), de oposição institucional à Ditadura, e pessoas ligadas à herança do período autoritário, como Paulo Maluf (PDS) e Guilherme Afif (PL). As indicações de partidos se referem à época do pleito.

Havia ainda gente considerada “outsider”, como o então governador de Alagoas, Fernando Collor (PRN), que já tinha fortes relações com Brasília. Seu pai, o ex-senador Arnon de Mello, foi eleito para a Casa Alta em 1962 e de lá só saiu morto, em 1983. Em 1963, Arnon sacou um revólver para atirar em seu rival, o senador Silvestre Péricles, mas o tiro atingiu José Kairala, que faleceu no hospital. O “Fernandinho” cresceu em meio à primeira juventude brasiliense, entre aulas de karatê e confusões nas quadras do Plano Piloto. Voltaria à cidade em 1990.

A campanha de 1986 foi agitada. O pleito de 1989 representou uma espécie de terceiro ato de uma festa contínua. A psicanalista Yesmin Sarkis disse: “Foi outro ponto de redenção. Teve a eleição da Constituinte, depois a própria Constituinte e depois a eleição [presidencial]. Era uma sequência de marcos históricos”.

No dia do pleito, 15 de novembro, uma quarta-feira, dos 759.480 votos válidos, Lula angariou cerca de 220 mil votos (29%), quase 28 mil a mais que o principal opositor, Fernando Collor. O marqueteiro Augusto Lins disse à Agência Câmara em 2014: “O Fernando Collor é um candidato pitoresco, ele não vai ter mais do que 4%, e essa história de marajá não dura nem dois meses”. Lins surgiu com o slogan que consagrou Collor.

Em Brasília, Lula conquistou 451.780 votos (62%) no segundo turno, cerca de 200 mil a mais que Collor. No cenário nacional, Collor contou 35 milhões de votos (53%). O alagoano venceu em todo o Nordeste, com 8.872.927 votos (55%) nos nove estados, que hoje são a base eleitoral mais fiel a Lula. Aquele pleito marcou a última vez que o povo brasileiro votou no dia 15 de novembro.

A partir de então, houve votações de primeiro turno em diversos dias de outubro. O segundo turno em 1989 foi em 17 de dezembro. Para 2026, a votação está marcada para os dias 4 de outubro (primeiro turno) e 25 de outubro (segundo turno, se necessário). Daquele pleito de 1989, além de Fernando Collor, apenas Lula chegou à Presidência da República. Após a derrota, Lula perdeu em 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ganhou em 2002, 2006 e 2022.

Neste ano, Lula é novamente pré-candidato, mas conta com outro veterano daquele episódio, Ronaldo Caiado, líder e fundador da União Democrática Ruralista (UDR). Hoje no PSD, Caiado protagonizou embates com o petista desde 1989. Sua carreira política inclui eleições para a Câmara dos Deputados (1990, 1998, 2002, 2006 e 2010) e para o Senado (2014). Em 2018, elegeu-se governador de Goiás, cargo para o qual foi reconduzido em 2022. Para 2026, já é pré-candidato à Presidência.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.