Os medicamentos emagrecedores se tornaram o novo alvo do contrabando que entra no Brasil pela fronteira de Foz do Iguaçu (PR). O aumento na apreensão de canetas e ampolas superou o crescimento registrado para produtos como cigarros e celulares.

Dados da Alfândega da Receita Federal de Foz do Iguaçu mostram que as apreensões desse tipo de mercadoria cresceram cerca de 1.000% em um ano. De acordo com a Receita Federal, entre janeiro e maio de 2025 foram apreendidas 7.479 unidades. No mesmo período deste ano, o total subiu para 79.837 unidades.

As canetas são compradas no Paraguai por um preço 69% menor, o que estimula a entrada ilegal no Brasil. As apreensões diárias aumentaram após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibir a entrada de algumas marcas do medicamento compradas no Paraguai.

O chefe da Alfândega da Receita Federal em Foz do Iguaçu, Cezar Vianna, afirmou que a fiscalização está mais concentrada em ônibus fretados com histórico de ocorrências. “Estou aqui há mais de 20 anos e este incremento de 1.000% nas apreensões em um ano é totalmente atípico”, disse.

A maioria dos medicamentos que chega ao Brasil são ampolas com princípios ativos para uso com as canetas. Por serem pequenas, as ampolas podem ser escondidas em bolsos de calças, capacetes e até em paredes de caixas térmicas, onde cabem até 500 unidades.

Os contrabandistas usam diversos artifícios para cruzar a fronteira. Já foram encontradas ampolas dentro de potes de doce de leite argentino, em compartimentos atrás de banheiros e em dutos de ar-condicionado de ônibus. Veículos como motocicletas, ônibus de turismo, carros populares e de luxo, como Land Rover, BMW e Mercedes, também são usados, com produtos escondidos em fundos falsos.

O interesse pelo produto não se limita às redes de contrabando. A Receita Federal já abordou famílias que programam férias em Foz do Iguaçu, cruzam para o Paraguai e trazem os remédios nos próprios carros para vender ou usar. Também é comum encontrar ampolas com brasileiros que estudam Medicina no Paraguai e cruzam a fronteira diariamente. O dinheiro obtido seria usado para pagar mensalidades dos cursos.

Há ainda os chamados “laranjas”, que passam pela Ponte da Amizade a pé ou de moto para levar o produto até pontos específicos ou estacionamentos em Foz do Iguaçu. Um carregamento de 50 ampolas vale cerca de R$ 9 mil, mas o preço pode dobrar quando chega ao Brasil.

Os servidores da Receita também alertam para as más condições de transporte, que não seguem normas sanitárias. O medicamento precisa de controle térmico para não perder a eficácia, mas no contrabando essa preocupação não existe. A Receita Federal estima que apreende cerca de 5% do volume de contrabando e descaminho que passa pela fronteira.

Os medicamentos retidos ficam armazenados na Alfândega de Foz do Iguaçu até o fim do processo administrativo. Depois, são enviados para Goiás, onde são destruídos.

A proibição da entrada dos remédios no Brasil também gerou uma rede de fabricação clandestina. Em março, donos de farmácias e depósitos em Ciudad del Este pediram proteção policial contra roubos de quadrilhas especializadas. Em maio, a Direção Nacional de Vigilância Sanitária do Paraguai (Dinavisa) emitiu um alerta sobre medicamentos como Veltrane, Tirzepatide, Thera Tirzepatide, Tirzepatite Injection e Tirzegen, por não terem registro e poderem conter substâncias prejudiciais à saúde. O órgão informou que não há dados precisos sobre dosagem e preparo desses produtos.

Segundo a Anvisa, nenhum medicamento registrado em outros países pode ser vendido no Brasil, e medicamentos autorizados no Brasil não podem circular em outros países. A agência já suspendeu importações de vários tipos de medicamentos e emitiu resoluções sobre canetas falsificadas.

Share.
Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.