Após uma semana de derrotas do governo Lula (PT) no Congresso Nacional, movimentos de esquerda apostam no apelo pelo fim da escala 6×1 para apertar a pressão sobre o Legislativo nos atos de 1º de Maio, realizados nesta sexta-feira.

Pelo segundo ano seguido, o presidente não deve participar dos atos sindicais da data. Em 2024, Lula criticou a baixa adesão ao ato em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Para não expor o petista, pré-candidato à reeleição, a um novo desgaste de imagem se as manifestações forem novamente esvaziadas, a opção foi preservá-lo.

O receio de baixa adesão também fez com que as manifestações não sejam centralizadas em 2026, como vinha ocorrendo desde 2018. O Rio de Janeiro será exceção, com um grande ato marcado para as 14h na praia de Copacabana, na zona sul da cidade.

Em São Paulo, as frentes reunirão parte dos políticos mais próximos de Lula para enviar um recado ao Congresso. A relação de tensão com o governo foi agravada pela rejeição à indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal), na quarta (29), e pela derrubada do veto ao PL da Dosimetria, na quinta (30).

Por isso, a principal aposta da esquerda será na defesa do fim da escala 6×1, que já foi uma das tônicas do 1º de Maio do ano passado e é aprovada por 71% da população, segundo o Datafolha.

Há duas semanas, o governo Lula enviou um projeto de lei propondo a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem diminuição de salário. O projeto próprio é mais flexível que a PEC (proposta de emenda à Constituição) da escala 4×3, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), e tramita de forma mais rápida no Congresso.

O governo quer aprovar o texto antes das eleições deste ano. Isso coloca deputados e senadores em situação delicada – rejeitar a proposta, na visão dos políticos, pode custar a reeleição de muitos. Por isso, vários queriam evitar que o projeto fosse votado em ano eleitoral.

A irritação de governistas com o Congresso após a sequência de derrotas da última semana, em especial o veto à indicação de Messias, fez com que eles se empenhassem em aprovar o fim da escala 6×1 o quanto antes.

“A classe trabalhadora está fungando no pescoço dos deputados para que a lei passe”, disse Moisés Selerges, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pré-candidato a deputado federal pelo PT-SP.

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, berço político do presidente Lula, organizará um dos principais atos desta sexta-feira, com início previsto para as 9h. A mobilização será no centro da cidade e contará com discursos e apresentações musicais – a principal será de Glória Groove, que emplacou o hit “Vermelho” em 2022.

A partir das 16h, o ato do ABC deve contar com a presença dos ministros Luiz Marinho (Trabalho) e Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), além do presidente do PT, Edinho Silva, e do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, pré-candidato ao governo paulista.

Haddad se juntará às pré-candidatas ao Senado em SP, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), no ato promovido pela Força Sindical às 8h, na sede do movimento, no bairro da Liberdade. O trio é visto no PT como o possível palanque de esquerda no estado, que também tem Márcio França (PSB) pleiteando uma candidatura a senador.

Às 9h, na praça Roosevelt, no centro de São Paulo, o movimento VAT (Vida Além do Trabalho) reunirá manifestantes em defesa da redução da jornada de trabalho. Devem participar Erika Hilton e o vereador do Rio de Janeiro, Rick Azevedo (PSOL), além da própria Marina Silva.

Presidente da Força Sindical, Miguel Torres disse que a data é importante para lembrar as conquistas dos trabalhadores e pressionar por novas, como o fim da escala 6×1, que classificou como “um clamor geral da classe trabalhadora brasileira”.

Ele também defendeu a descentralização dos atos, acrescentando que eles valorizam as categorias na defesa de pautas próprias. “Acredito que o número de participantes em todo o país será muito expressivo, representativo e com muita consciência de classe”, disse ele, negando que o objetivo de fragmentar as manifestações tenha sido por receio de que elas sejam esvaziadas.

Atos da direita

De forma inusitada para o 1º de Maio, movimento que historicamente foi capitalizado pela esquerda, grupos de direita se reunirão na avenida Paulista, na região central de São Paulo, a partir das 11h.

O ato da Paulista será promovido por Patriotas do QG, Marcha da Liberdade e Voz da Nação. Os movimentos integram o Projeto União Brasil, organização sem ligação com o partido de mesmo nome e que reúne grupos conservadores. O trio reservou o 1º de Maio na Paulista com antecedência, critério usado pela Polícia Militar para ceder a via aos movimentos, e não à esquerda.

Nas redes sociais, os movimentos afirmam que o ato servirá para apoiar a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pedir a liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar após ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado, e se posicionar contra o fim da escala 6×1.

O senador Marcos Do Val (Podemos-ES) confirmou presença no evento. No Instagram, o Patriotas do QG divulgou um vídeo feito com auxílio de IA (Inteligência Artificial), que simula um convite feito pela ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), presa na Itália.

“Amigos patriotas, apesar de estar presa, faço um convite a todos os brasileiros: dia 1º de Maio vamos todos para as ruas manifestar. Flávio presidente, Bolsonaro livre e Supremo é o povo. Juntos somos mais fortes”, diz a versão computadorizada de Zambelli.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.