O ministro Luiz Marinho, do Trabalho e Emprego, interveio na lista suja do trabalho escravo para retirar do cadastro uma associação fundada pelo presidente de um diretório do PT na Bahia.

A Apaeb (Associação Comunitária de Produção e Comercialização do Sisal), do município de Valente (BA), foi autuada e multada em 2024 após uma fiscalização concluir que ela era responsável por condições análogas à escravidão de trabalhadores da colheita de sisal.

Marinho usou o recurso da avocatória – quando o ministro assume o poder de decisão – para cancelar as infrações. Ele também enviou o caso à corregedoria do ministério para avaliar a atuação dos auditores fiscais, o que foi visto por servidores como um caso de assédio institucional.

A associação nega responsabilidade, e o Ministério do Trabalho não se manifestou.

Na semana passada, o ministro fez o mesmo com uma empresa de asfalto de Goiás, que teve sua autuação anulada e não entrou na lista suja. Foi a quarta avocação feita por Marinho em menos de um ano. Nesta segunda-feira (13), o secretário de Inspeção do Trabalho foi dispensado do cargo em meio a uma crise interna na pasta.

Por causa da intervenção ministerial, a Apaeb não consta mais no cadastro de empresas que submetem trabalhadores a condições análogas à escravidão, divulgado na segunda-feira (6).

A Apaeb foi fundada por Ismael Ferreira (PT), ex-prefeito de Valente. Hoje ex-diretor, ele ainda representa a associação. Ele se reuniu com Marinho em agosto de 2025. Segundo a agenda do ministro, o tema foi o processo de fiscalização trabalhista.

A Folha de S.Paulo enviou ao ministério, ao longo de março, perguntas sobre a relação de Marinho com a Apaeb e com outras duas empresas favorecidas por suas avocações – a JBS e a Santa Colomba –, mas não obteve resposta.

A Apaeb afirma que não tem fazenda e não faz plantio ou colheita de sisal. “A Apaeb não tem qualquer relação com a fazenda citada no processo, além de nunca ter tido qualquer tipo de contato direto ou indireto com nenhum dos trabalhadores”, disse.

Para os fiscais, no entanto, havia subordinação estrutural entre a associação e os trabalhadores da fazenda, pois estes seguiam o modelo de produção definido pela Apaeb, que também controlava preço, fornecia recursos e determinava a qualidade do produto.

A decisão de Marinho causou incômodo na Secretaria de Inspeção do Trabalho, não apenas por anular o resultado de uma fiscalização, mas também pela flexibilidade com os prazos.

O artigo da CLT usado para a avocação prevê prazo de 90 dias a partir do despacho final do processo. No caso da Apaeb, o processo estava finalizado desde junho de 2024, e as multas já estavam pagas.

A Procuradoria-Geral do Trabalho também é contra o uso da avocação. O entendimento, segundo o procurador-geral Glaucio Araujo de Oliveira, é que as empresas têm outras ferramentas para contestar as punições.

A associação diz que compra sisal prioritariamente de pequenos produtores e, para complementar, de intermediários – caso da propriedade fiscalizada. Segundo a Apaeb, esse produtor não vende exclusivamente para ela.

Marinho disse à Folha de S.Paulo, em entrevista no fim de fevereiro, que as autuações nas quais interferiu acabariam sendo anuladas na Justiça por não terem sido corretamente caracterizadas. “O ministro chancelou a análise do jurídico, que disse: ‘Tem problema aqui. Isso aqui, se vai à Justiça, vai ser nulo'”, afirmou.

A primeira avocação feita por Marinho impediu que a JBS fosse para a lista suja. O ministro usou um parecer jurídico que citava a relevância da empresa e os potenciais impactos para a economia. A JBS está entre os maiores exportadores de carne do mundo.

Em nota, a JBS afirmou que a Seara, contratante da terceirizada, imediatamente encerrou o contrato e bloqueou o prestador ao saber das denúncias. A empresa também contratou uma auditoria externa e diz ter tolerância zero com violações trabalhistas e de direitos humanos.

O uso de um motivo econômico para blindar uma grande empresa foi, para auditores, o ápice de uma relação difícil, que em 2025 levou à paralisação de 390 servidores que atuam no combate ao trabalho escravo.

O trabalho só foi retomado no fim de fevereiro, depois que a Conatrae montou um grupo de acompanhamento das operações. Segundo auditores, foi uma forma de respaldar o trabalho dos fiscais.

Além da Apaeb e da JBS, Marinho fez o mesmo pela Santa Colomba, empresa que tem entre seus advogados João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara pelo PT. Cunha assina o pedido de avocação do caso. Nele, houve identificação de um trabalhador torturado.

Procurados desde 13 de março, o escritório de Cunha e a Santa Colomba não responderam.

A avocação mais recente foi da LCM Construção. Segundo relatório, foram resgatados 15 trabalhadores em situação análoga à escravidão na construção de uma rodovia em Goiás. A empresa foi procurada nesta segunda-feira (13) e não respondeu.

A avocação não tinha sido usada antes. Outras empresas tentaram, mas a consultoria jurídica do ministério barrou a apelação. Os procedimentos tiveram outros pontos considerados obscuros pelos servidores.

Para Rodrigo de Carvalho, coordenador nacional da Anafitra, a medida que beneficiou a associação do sisal foi uma tentativa de coibir o trabalho da inspeção. “Revogou um ato, não publicizou esse ato e ainda tomou uma medida de enviar para Corregedoria. Qual a segurança que eu tenho para sair da minha casa, ir lá para o interior, e tentar fazer um trabalho desse jeito?”, disse.

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Cristina Leroy Silva

Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.