Dólar sobe a R$ 5,16 mesmo com deflação no IPCA-15 de agosto
Moeda avança com dados dos EUA e dívida pública no radar, mesmo após inflação brasileira vir abaixo do esperado
O dólar fechou a manhã desta quarta-feira (26) em alta, cotado a R$ 5,16, impulsionado por dados de inflação nos Estados Unidos que vieram mais fortes do que o esperado. O movimento ocorreu mesmo depois de o Brasil registrar deflação na prévia da inflação de agosto, o que normalmente ajudaria o real a se valorizar.
Segundo o Terra, por volta das 10h33 a moeda subia 0,41%, negociada a R$ 5,1625. Já a Folha de S.Paulo registrou, às 11h30, alta de 0,38%, a R$ 5,159. O Bem Paraná apurou, no início da tarde, avanço de 0,26%, a R$ 5,154. As variações de horário explicam a diferença entre os valores: o dólar oscilou ao longo do dia, mas manteve a tendência de alta.
Por que o dólar sobe mesmo com a inflação brasileira em queda
O IBGE divulgou nesta quarta que o IPCA-15, a prévia oficial da inflação, caiu 0,4% em agosto. É a primeira deflação do indicador em um ano e a maior queda em quatro anos, desde agosto de 2022. O resultado veio bem acima do que o mercado esperava: a mediana das projeções, segundo a Bloomberg, era de recuo de 0,32%.
Na teoria, uma inflação mais baixa tende a fortalecer o real, porque abre espaço para o Banco Central cortar a Selic, a taxa básica de juros. Só que o câmbio respondeu de forma diferente nesta quarta: o que pesou mais foi o dado americano.
Nos Estados Unidos, o índice de preços PCE, que é o termômetro de inflação usado pelo Federal Reserve (o banco central americano) para calibrar sua política de juros, subiu 3,7% em 12 meses até julho. A taxa repetiu o número de junho, mas ficou acima da previsão de economistas ouvidos pela Reuters, que apontavam 3,6%. O Terra registrou ainda que o índice avançou 0,2% apenas em julho, também superando as expectativas.
O que isso significa para quem compra ou vende dólar no Brasil
Com a inflação americana ainda longe da meta de 2% do Fed, o mercado passou a apostar que o banco central dos EUA vai manter os juros altos por mais tempo, sem espaço para cortes agressivos no curto prazo. Juro alto nos EUA atrai capital para lá e tira força das moedas de países emergentes, como o real.
Para quem depende de dólar no dia a dia, o efeito é direto: viagens ao exterior, compras internacionais e produtos importados ficam mais caros à medida que a moeda americana se valoriza. Já para exportadores, incluindo o agronegócio, a alta do dólar melhora a receita em reais sobre vendas ao exterior.
O consultor Otávio Araújo, da Zero Markets Brasil, avaliou que a queda da inflação brasileira é positiva para a Bolsa e reforça a expectativa de um ciclo de cortes de juros mais consistente por aqui, beneficiando setores como varejo e construção, segundo ele em declaração à Folha de S.Paulo e ao Bem Paraná. Já o economista Vitor Kayo, da Nomad, disse aos mesmos veículos que o dado americano não deve mudar a leitura do mercado, que ainda aposta em manutenção dos juros pelo Fed em setembro, com possível alta só em outubro ou dezembro.
Dívida pública e Ibovespa também entram na conta
Além da inflação dos dois países, o mercado também acompanha nesta quarta a divulgação dos dados da dívida pública federal, conforme apurou o Portal do Agronegócio. O indicador mostra as condições em que o governo consegue se financiar e influencia diretamente a percepção de risco fiscal do Brasil, o que pode se refletir em juros futuros e no próprio câmbio.
No mercado de ações, o Ibovespa acompanhou o dólar e também subiu nesta quarta, avançando cerca de 0,27%, para a faixa de 175 mil pontos, segundo Bem Paraná e Folha de S.Paulo. Na sessão anterior, terça-feira (25), o índice já havia fechado em alta de 1,55%, aos 174.577 pontos, conforme o Portal do Agronegócio. No ano, a Bolsa acumula ganho de mais de 8%, mas ainda registra queda em agosto.
O Banco Central também tem participação direta no mercado de câmbio nesta quarta: às 11h30, a instituição realizou leilão de 60 mil contratos de swap cambial para rolar um vencimento que ocorre em 1º de setembro, informou o Terra. Esse tipo de operação é uma forma de o BC atuar sobre o dólar sem comprar ou vender a moeda física.
O que observar daqui para frente
A combinação de deflação no Brasil com inflação resistente nos Estados Unidos cria um cenário de sinais contrários: o dado local aponta para juro mais baixo por aqui, enquanto o dado americano sugere juro alto por mais tempo lá fora. Na prática, é esse segundo fator que tem pesado mais sobre o dólar nesta quarta.
Para o consumidor e para quem faz planejamento financeiro, o ponto de atenção passa a ser a reunião do Copom em setembro, quando o Banco Central decide o rumo da Selic à luz da deflação registrada no IPCA-15. Do lado americano, o mercado vai monitorar se o Fed sinaliza mudança de rota em outubro ou dezembro, conforme apontado pelos economistas consultados. Até lá, o câmbio deve continuar reagindo a cada novo dado divulgado dos dois países, sem uma direção garantida.
Fontes consultadas
Continue por aqui: o caderno de casa do Saber de Fato e o caderno de entretenimento do Saber de Fato.



